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Histórias que edificam: "A caixa sagrada"

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Depois de ter se cansado de perguntar repetidas vezes o que havia feito para ser desprezada daquele jeito, Jane resolveu questionar a si mesma. Mas isso, só depois de muito tempo. Ele, como sempre, nunca respondia nada. Culpava o tempo pelo desgaste no relacionamento ou simplesmente não dizia o que ela queria ouvir.

Fran saiu de casa sem deixar frestas possíveis de cicatrização. Só disse que estava cansado e precisava esfriar a cabeça por um tempo. Mas, “não era nada com ela”, ele tentava amenizar. Porém, Jane jamais se conformou. Não havia como. Não havia respostas para as suas perguntas, muito menos razões. Menos ainda, alívio para a sua dor. 

E isso foi o último passo para ela mergulhar isolada e sutilmente em uma nova etapa da sua vida. Fran sumiu, mas não por muito tempo. Depois de alguns dias, acompanhado de outra mulher, fez-se ser visto por Jane, que até então nutria algum fio de esperança.

Tudo aconteceu sem que ela percebesse. Não houve um aviso prévio, nem sinais de que as coisas não andavam bem – pelo menos, Jane nunca os percebeu. Ela permanecia fixada em seu cotidiano de futilidades. E quando resolveu abrir os olhos, foi para ver o marido fechando as portas definitivamente para ela.

E nem mesmo as várias tentativas foram suficientes para a comoção dele. Como na vez em que, desesperada, Jane ligou repetidas e incontáveis vezes para o celular de Fran. Ele ignorou a primeira ligação, a segunda, até que perdeu a paciência e desligou o aparelho, trocou o número e a raiva só contribuiu para afastá-lo ainda mais.

Ela não conseguia compreender que o fato de ele ter ido embora não significava precisamente o fim, mas talvez uma oportunidade para um recomeço. Talvez de ambos, mas principalmente dela. Quem sabe se ela refletisse nos últimos acontecimentos e encontrasse nela mesma a resposta que tanto procurava? Mas Jane preferiu ignorar os fatos e os argumentos. E não percebeu que a extrema atenção que ela dava a si mesma a fez, inconscientemente, lançar o homem de sua vida para os braços de outra.

Seu narcisismo, sua autossuficiência e sua busca pela juventude eterna, acima de tudo, vendaram os seus olhos para a lógica de que não haveria sentido ter tanto em si, sem ter nada de si para mostrar – ou, o que é fundamental – sustentar.

Desde o dia em que ele se foi, Jane rompeu consigo e se trancou no silêncio. E depois que desistiu de tentar e implorar pela volta dele, lembrou-se de uma caixa guardada havia muito tempo no porão de casa, um objeto que, para ela, seria a única esperança de fazer o marido voltar.

Jaqueline