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"O transplante"

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O transplanteUm dos rins de Brian estava muito debilitado. Há tempos não funcionava com perfeição. Há tempos não filtrava corretamente o sangue de suas impurezas, nem mantinha o equilíbrio dos eletrólitos, ou muito menos regulava a pressão e o volume do líquido corporal. Com isso, todo o organismo de Brian encontrava-se prejudicado, e o metabolismo do seu corpo tornara-se cada vez mais deficiente.

Brian sabia que não tinha muitos dias de vida. Estava velho e, para piorar, resmungava de tudo e todos. Ninguém o agradava, nada lhe satisfazia. E se mencionassem o nome de Paul, então, só faltava enfartar de vez.

Paul e Brian eram amigos desde a juventude. Saíram juntos do colegial, entraram juntos na universidade, até se formarem e seguirem suas vidas. Mas Paul, de certa forma, havia se tornado um inimigo mortal para Brian. Ele se casou, teve filhos e netos, e parecia ter esquecido o passado dos dois.

Brian, no entanto, demonstrava cada vez mais raiva. Mesmo com o organismo frágil, não se importava em nutrir aquele ódio por Paul.

– Mas o que houve entre vocês dois, afinal? – sempre pergunta a irmã de Brian.

– Ah, nada! Não somos mais amigos e pronto! Você já devia saber disso! – responde exaltado, como de costume.

Certo dia, Brian fora levado às pressas ao hospital. O coração ameaçava parar, e a respiração, cada vez mais lenta, dava sinais de que a insuficiência renal só tendia a piorar.

O médico sentenciou:

– Vamos precisar operar!

Brian estava inteiro nas mãos de um dos melhores cirurgiões do hospital. Desacordado, após a anestesia geral, o cirurgião começou o desafio de salvar a vida de um homem cujo coração estava a ponto de parar.

Horas depois da cirurgia, com o abdome enfaixado, Brian reclamava um pouco de dor.

– É dor no coração? Nos rins?

– Não, não é nada. Daqui a pouco devem me trazer o analgésico. Acredito que já vai passar. Onde está o médico? Quero falar com ele, agradecer…

A irmã de Brian saiu em busca do cirurgião.

– Os enfermeiros me disseram que ele só poderá ver você amanhã. Mas o outro médico que lhe acompanhou na cirurgia vai vir aqui daqui a pouco.

No dia seguinte, o cirurgião entra para ver o paciente. Brian não poderia acreditar no que lia naquele crachá: “Dr. Paul Vern”.

– Eu não estou acreditando que fui operado por você, Paul!

O médico demonstrava não entender nada, mas não conseguiu disfarçar por muito tempo.

Brian voltou a ficar carrancudo, mas logo pensou que se não fosse Paul, talvez não estivesse vivo.

– Paul, faz muito tempo que não nos vemos… Fiquei com tanta raiva de você desde o dia em que nos desentendemos no meu baile de formatura… Não devíamos ter brigado. E foi por uma coisa tão boba… Quero lhe agradecer pelo que fez por mim hoje. Se não fosse você me operar, não sei o que poderia ter acontecido comigo. Fui um grande tolo! Agora somos dois velhos que se reencontraram quase na hora da minha morte. E você, de amigo, o tornei meu pior inimigo.

Foi quando Paul o surpreendeu:

– Na verdade, Brian, eu nunca fui seu inimigo, muito menos deixei de ser seu amigo. Desde que você entrou na sala de operação, o reconheci no mesmo instante, e fiz o possível para que saísse curado.

Brian percebe um sangramento no lado esquerdo de Paul, que fez de tudo para disfarçar o ferimento ainda não cicatrizado.

Paul se despediu e saiu depressa levando a mão até o seu lado esquerdo – não conseguia mais segurar a dor. Já Brian ficou em seu quarto tentando entender por que Paul havia feito aquilo. E buscava compreender o motivo de ter recebido, mesmo sem merecer, o rim de seu melhor amigo.

Para refletir

O que nos torna melhores ou piores é a forma como pensamos ou sentimos pelas pessoas. Só quem sofre com a mágoa é quem insiste em permanecer com ela. Não esqueça que o mundo dá muitas voltas, e um dia você pode precisar daquele a quem muito despreza.

O problema não é quem nos odeia, mas quem NÓS odiamos.

imgo (1)Jaqueline Correa