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A grande guerra – A traição

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Grande guerraQuando o gueto em que vivia foi praticamente esvaziado, Vincent, a mulher e outros poucos judeus corajosos, entraram no bunker e esperaram que os nazistas fossem embora – e que, por algum milagre, não os vissem ali.

Um dos oficiais e vários soldados com cães farejadores entraram na casa e vasculharam tudo. Vincent e os outros ficaram em um silêncio mortal; seus corpos gelavam, pingavam de suor, alguns deles ensaiavam desmaiar de pânico. Se fossem descobertos poderiam ser mortos ali mesmo. Mas não foram encontrados. E, apesar dos cães latirem bastante, os soldados resolveram ir embora.

Mary suspirou alto e os outros rezavam agradecendo pelo livramento.

Mas, de repente…

– Ra-ta-ta-ta-ta-tá…!!!!

– Saiam agora daí! Sabemos que estão aí em baixo. Saiam agora ou morrerão aí mesmo!

Não havia jeito. Todos tiveram de subir e se apresentar aos soldados. Um por um foi saindo, até o último, Vincent. Quando surgiu, deparou-se com Tom junto aos nazistas. Mary só conseguia chorar, imaginando o que poderia acontecer.

Tom disse ao oficial:

– Eu disse ao senhor que havia mais deles aqui no gueto. – era inacreditável! Vincent e Mary não entendiam tamanha traição. Tom comportava-se como um desconhecido – ou, pior, como um inimigo mortal deles. Era uma consequência da guerra, do medo da morte. Sim, Vincent sabia disso, mesmo assim não aceitava a traição. O que aconteceu com o seu amigo? Onde foi parar a amizade de longa data? Ao final, após serem surrados, foram levados para o caminhão, rumo a um lugar chamado Auschwitz.

De longe, Vincent viu Tom recebendo algumas gratificações. “Certamente por ter nos entregado”, Vincent atestou.

Dias depois, já no campo de concentração, Vincent se perdeu de Mary. Ela fora encaminhada para a ala feminina, e ele designado aos serviços pesados. Ali, viu que tudo era exatamente como Tom havia lhe falado meses antes.

A lição

Um ano se passou, e Vincent não acreditava na visão que estava tendo. Deparou-se com Tom, vestindo a mesma roupa listrada de prisioneiro e com uma aparência de assombrar. Estava magro demais, ferido, cheio de hematomas e muito doente. Tom contraíra tifo, uma doença transmitida pelos piolhos que infestavam os pavilhões.

Vincent perguntou:

– O que você faz aqui? Você não é judeu…

– É, mas alguns oficias não acreditaram em mim. Na verdade, acho que eles sabem que não sou, mesmo assim me enviaram pra cá. Acho que sabiam que éramos amigos. Mas isso não importa mais! A minha vida já está arruinada mesmo… Vou acabar morrendo como você aqui! – ele falava em tom irônico e raivoso.

Um soldado se aproximou e deu uma paulada em Tom, indignado por vê-lo conversar, em vez de continuar carregando as pesadas pedras. Ele caiu e começou a sangrar. Não estava recuperado da doença, sem falar que o seu corpo estava bastante debilitado pela falta de saúde e alimento.

Vincent se aproximou, agarrou o amigo pela mão e tentou levantá-lo, apesar da imensa dificuldade. Tom não conseguia se apoiar. Vincent se abaixou. E, imaginando que poderia ser a última oportunidade de falar com o ‘ex-amigo’, disse:

– Fiquei muito abalado com a sua traição, mas não sei se vamos conseguir sair daqui vivos ou não. Se a guerra terminar antes de irmos parar na câmara de gás, ainda teremos uma esperança. Porém, quero lhe dizer agora mesmo que você sempre foi o meu amigo, meu melhor amigo, e entendo que se não me entregasse, talvez pudesse sofrer as consequências. Quero lhe dizer que por mim nossa amizade nunca vai morrer.

Tom, que nunca mais soube o que era um sorriso no rosto, sorriu de leve, não conseguindo segurar as lágrimas. Talvez não tivesse a chance de sobreviver, mas agarrou a oportunidade de reerguer a amizade.

Em 1945, a guerra acabou. Tom não suportou a doença e morreu. O saldo da guerra foi de milhões de judeus mortos nos campos de concentração – Mary foi uma delas. Já Vincent sobreviveu, recomeçando a vida como uma pessoa que sobreviveu ao ódio, à dor e, sobretudo, à traição de um amigo.

Para refletir

Muitas vezes, agimos como Tom, traindo o Senhor Jesus em prol de um benefício próprio, mas Ele, tal como Vincent, sempre verá oportunidades onde não existem para nos perdoar e refazer a amizade que se perdeu pelo caminho.

Guerras, principalmente espirituais, sempre vão existir. E são elas que dirão de qual grupo você faz parte: dos que abandonam a fé em prol de si mesmo, ou dos que superam todas as adversidades e sentimentos ruins, para se manterem fiéis a Deus, e que, no fim, serão salvos.

imgo (1)Jaqueline Correa